O dia começou sombrio e pesado como o caudal de um rio cheio em épocas das cheias. O bairro de Magoanine ressonava de dores até as últimas entranhas da sua existência. Mamanas cantavam hinários de pesar e conternação. Passáros não ficaram para trás e, entraram na densa melodia das serenatas agridoces. Afinal o que acontecera?
Ao acordar pelas 8 da manhã soube que um ancião amado e querido por todos no bairro “o vovó Alito” falecera na noite anterior. E o eneterro seria naquele dia. O Chefe do Quarteirão foi ter comigo na qualidade de Chefe das 10 casas – Eu não conseguirei me fazer presente meu Companheiro, pois não tenho dinheiro de chapa para me deslocar até ao Novo Cemitério. Por instantes, até quis recusar devido aos inúmeros trabalhos académicos por cumprir naquele dia. Parece que o Chefe do Quarteirão percebeu a mina investida e logo rematou:
- Famba a cemitela, mine ni taya a Swikhongotweni (vá ao cemitério, eu irei as orações na casa do malogrado – tradução X/changana para a língua portuguesa). Sem mais argumentos para investir decidi cumprir com a missão. Enquanto caminhava imagem de preocupações povoavam a minha mente: terminar o TPC, fazer análise crítica de uma obra de um escritor moçambicano, resumir em duas páginas o contributo dos poetas afro-americanos durante a guerra civi norte-americana.
De leve uma doce mão tocou-me no ombro e me trouxe de volta à realidade: - Vais a paragem subir chapa que vai ao Novo Cemitério? Mapiei a voz suave que me lançara a questão, como um pescador admirando tamanho peixe em sua rede. Sim – respondi. A moça na minha companhia era uma vizinha recente no nosso bairro e, o nome dela é Zaituna. Após 10 minutos de espera na paragem eu e a Zaituna subimos um chapa que nos levaria até ao nosso destino; o Novo Cemitério.
Juntamente connosco, bem a nossa trás três jovens subiram e se sentaram na cadeira à nossa frente. Traziam consigo cesto, capulanas, sapatilhas e três garrafas de marcas difrentes de bebidas espirituosas, vulgo Xivotxongwa.
Reparei bem para o semblante dos jovens. Pele descamada como se tivesse levado porrada por séculos com alergias. Os lábios das suas bocas pareciam lenha pronta para ser usada na fogueira em dias de frio.
O meu olhar pelo corpo de cada um descrevia itnerários de um curioso revoltado com a sociedade actual e com os jovens que vendem ideais e se mergulham no mundo do àlcool. De repente fui interrompido pela voz calma de um dos jovens. Irmão bana calço (irmão beba um gole). Xa vutomi xa banana irmão (a vida é dura irmão). Aquele convite foi a minha deixa para tenter converter os jovens à razão, pois bebiam sem nada ter deitado ao estômago àquela manhã.
- Já pensaram em parar de beber? Olhares ameaçadores perseguiram o rosto de quem lançou a questão. De repente uma senti explosão de risadas dos três jovens. Uma marcha de respostas foi dada: - nunca pensei em para de beber. Porque é que pararíamos ou deixaríamos? Nem os nossos pais nunca nos fizeram essa pergunta. Você é médico ou é o Presidente da República? Tentei argumentar que consumir àlcool sem passar uma refeição é prejudicial à saúde e, que a quantidade que eles estavam a ingerir era demasiada dado o teor (volume em percentagem) de cada garrafa: - guardem isso irmãos vocês têm muita vida pela frente para beber. Alimentem-se primeiro. Por favor – eu disse.
Mais explosões de risadas estrondaram no chapa. Passavámos Missão Roque quando um dos jovens já não batia um gole, mas consumia a Xivotxongwa como se estivesse a competir com alguém. Um desfile de goladas sucedeu-se de Missão Roque até ao Mercado Grossista do Zimpeto. E cada vez que os goles desfilavam pelo pescoço do jovem ele gritava: - toma que te dou; se não gosta é contigo.
Eu olhava atónito à situação e sentia por eles. De repente, para a surpresa de todos no chpa, um dos jovens caiu e perdeu a respiração. O seu corpo criou abanões. Seus olhos arregalaram-se e mudaram de cor. De cor branca para a castanha. De castanha a amarela. De amarela a vermelha. Pára, pára o chapa Motorista. Pára o chapa Cobrador. Ordenavam os amigos do jovem deitado e debatendo-se – Motoristaaaaaaaaa, Cobradorrrrrrrrrrrr pára já, o nosso amigo está mal. Os passageiros uniram-se e tentaram ajudar, abriram as janelas para que entrasse ar. Logo que o chapa parou eu e mais 4 passageiros carregamos o jovem e pusemo-lo no passeio. Seu corpo parceia distante, tão distante quanto o estômago de quem há séculos não passa uma refeição. Na tentaiva de o levar ao Centro de Saúde do Zimpeto, o congestionamento na Avenida de Moçambique nos deu rasteiras.
Sopa, por favor, sopa gritou um dos jovens. A polícia se fez ao local e o jovem continuou contorcido como se estivesse num ataque epiléptico. Sua boca espumava bolhas de saliva em grande volume e velocidade. Suas mãos apertavam o umbigo a cada contorção. O jovem naquele instante se contorcia parecendo um curandeiro no dia sua graduação ao chamado ancestral. Ora caía, ora levantava perante a curiosidade dos nossos olhares e corpos e ideias inertes àquela situação. O jovem caiu de trás como uma estátua a ser derrubada por não ter mais proveito. Logo, após a queda lançou da sua boca um rio de saliva espumada misturada com àlcool, fruto de tudo o que bebera naquela manhã. E nos poucos segundos que deu para ele proferir a sua última frase rematou:
- isto mata irmãos. Melhor pararem para não serem como eu. Ali mesmo o jovem perdeu a vida. Paíto, Paíto meu Txuzi (amigo) não nos deixe. O que será de nós. Choros decoraram o ambiente e Paíto partira tão cedo, tão jovem, vítima das suas próprias escolhas. É estranho que com tantas mortes cavalgando a nossa sociedade moçambicana, este tipo de bebida ainda continue à espreita em muitas montras pelo nosso país. Barata como não, a Xivotxongwa vai tirando vidas, sonhos e, cria o seu espectáculo no espectro da dor, morte, desemprego, dependência e miséria social.
Com tantas leis e tantas forças policiais que o Estado dispõe, ecoaram na minha mente três perguntas: 1 - De quem é culpa pelo elevado consumo deste tipo de bebida? 2 – Qual é papel do Governo no combate a este mal? 3 - Que estratégias todos os envolvidos (fabricantes, vendodores e consumidores) devem tomar para minimizar ou acabar com esta situação?
Enquanto entrava ao Novo Cemitério para a despedida eterna do “vovó Alito” lembrei das goladas que o jovem dera no chapa durante o percurso todo. Daí que percebi que a sua família teria mil saudades feitas de tragédia.
Necrópole da Campodre
Residente no bairro de Magoanine. É um investigador nato, fruto do seu trabalho como Cientista Social e Digitador de Conteúdos. Tem formações na Penn State World Campos em Psicologia da Ética da Liderança e NYU Stern School of Business em Ética nos Negócios. Em 2013 criou um Projecto artístico de Hip Hop Undeground intitulado “10 Pilares da Sabedoria”, tendo dado o nome ao agrupamento de “Campodre”. De 2016 à 2018 dirigiu um projecto sem fins lucrativos em colaboração com a Columbia University sobre a Negritude e o poder da poesia na construção de identidades. Entre 2020 e 2021 ofereceu os seus poemas a custo zero para um Projecto de Acção Social a duas instituições.