A participação da artista moçambicana Lizette Chirrime no Luju Food & Lifestyle Festival 2026 através de um desfile de exibição de peças com uma carga espiritual muito forrte destacou-se pela fusão entre moda, performance e identidade africana. Numa conversa colectiva à imprensa moçambicana que se deslocou à Eswatini, no dia 1 e 2 de Agosto, a artista falou sobre a inspiração da colecção apresentada na noite do primeiro dia do evento, destacando a importância da espiritualidade no seu trabalho, os desafios de afirmar a sua visão artística em Moçambique e os projectos sociais que pretende desenvolver.
Teve apresentação diferenciada no Luju Festival, que combinou moda, música e performance. Como surgiu esse conceito?
Eu procuro sempre ser verdadeira comigo e com as minhas raízes. Então, a ideia é de lembrar as pessoas de onde a gente vem, e quem realmente somos nós. Porque eu tenho notado, principalmente em África, que nós temos a tendência de nos esquecermos de quem somos nós. Vestimo-nos de uma maneira ocidental nunca somos aqueles verdadeiros africanos, pois esquecemo-nos das nossas raízes. A base do meu trabalho é a espiritualidade e africanidade. Por isso pedi Thobile para fazermos esse casamento entre a performance dela e as minhas roupas, que têm tudo a ver com aquilo que é a africanidade.
O que representa a colecção apresentada no festival?
Esta foi a primeira vez que eu participo num evento maior. Todas as vezes que eu mostro a minha roupa, que organizo desfiles, sou eu quem é a produtora, a criadora, e faço absolutamente tudo. Desta vez foi diferente, apenas me coube o papel de criativa. O resto estava desenhado. Foi muito bom. Para ser sincera, não dei nome a esta colecção, porque é um trabalho que vem da alma. É algo que faço naturalmente. E nunca faço a pensar num propósito. Porque, para começar, eu só soube que ia fazer parte do Luju Festival quando faltavam praticamente duas semanas. E duas semanas não são suficientes para fazer uma colecção daquelas. Eu sou uma pessoa espiritual. Então, eu tenho que deixar fluir, deixar sair, sem esperar que algo aconteça.
De que peças se trata verdadeiramente?
Eu falo muito dos ancestrais e tento sempre buscar essa narrativa. Muitas das vezes, tanto em Moçambique como fora, quando as pessoas retratam a África buscam sempre a capulana. Mas ela não é nossa. A capulana foi criada pelos alemães, holandeses e asiáticos que estudaram a natureza africana, os ritos e as cores, e desenharam padrões que encaixam com o nosso. Nós fomos nos apropriando das capulanas, mas não têm nada a ver conosco. Na altura, as pessoas faziam tecidos usando troncos, folhas, e outros objectos naturais. Só que isso foi se diluindo. Por isso que sempre que faço as minhas roupas, procuro trabalhar com tecido natural. Linho é o meu favorito, mas também exploro a serapilheira. Quando as pessoas vestem as minhas roupas sentem algo diferente, dizem que se sentem uma energia diferente. A minha roupa tem essa capacidade de te dar, de te trazer de volta à sua verdadeira essência, à sua verdadeira energia.
Como foi a recepção do seu trabalho no Luju Festival?
É a primeira vez que eles ouviram. Qual foi o feedback que teve? Que lições carrega desse feedback? Que eu estou no lugar certo. Eles ainda realçaram que eu estou no lugar certo. Eles gostaram do meu desfile. Ficaram felizes. E disseram se tratar de um projecto muito poderoso e muito forte. Aqui as pessoas são tão simpáticas, tão prestativas, e tão presentes.
Que lições leva desta experiência?
Levo, acima de tudo, a profissionalização da organização. Trabalhei em grandes eventos na África do Sul e fiquei impressionada com a forma tranquila e profissional como tudo foi conduzido aqui. Além disso, nasceram novas possibilidades de colaboração com artistas de outros países africanos.
O festival abriu portas para futuras colaborações?
Sim. Conheci artistas de diferentes países e surgiram conversas para futuras parcerias. Também pretendo criar, em Maputo, um espaço de residências artísticas destinado à formação de jovens, sobretudo raparigas, oferecendo oportunidades através da arte.
Falou também de um projeto social. Em que consiste?
Quero transformar o espaço onde vivo num centro de residências artísticas e intercâmbio cultural. O objectivo é apoiar crianças e, sobretudo, raparigas, oferecendo-lhes oportunidades para desenvolverem talento, autonomia e acreditarem que podem construir o seu próprio futuro antes mesmo de pensarem no casamento.
Como é que os moçambicanos podem resgatar a sua identidade cultural?
O primeiro passo é voltar para dentro de si. Cada pessoa é única e precisa de conhecer as suas raízes em vez de procurar respostas apenas no exterior. Quando nos conhecemos verdadeiramente, conseguimos partilhar algo autêntico com o mundo e contribuir para fortalecer a nossa identidade colectiva. No dia que nós pararmos de nos influenciarmos com os outros, lá fora, de acharmos que o outro, o capim do outro é melhor, o jardim do outro é melhor do que o nosso, aí nós vamos nos encontrar, vamos cuidar do nosso jardim, da nossa alma, do nosso espírito e isso é que vai te enriquecer. Eu trago o que está dentro de mim. Por eu estar a me alimentar, tenho algo para partilhar, e inspiro a outra pessoa. Mas quando inspiro a outra pessoa, não é para ela fazer o que eu faço.
Elcídio Bila
Oficial de comunicação e criativo com mais de 10 anos de experiência em jornalismo, assessoria de imprensa, edição e produção cultural. A sua trajectória destaca‑se pela versatilidade, cruzando media, criação literária e projectos socioculturais. Reúne competências em escrita criativa, edição de imagem, vídeo e design gráfico, complementadas por capacidade de liderança e gestão de equipas.