Durante algumas semanas, o barro deixou de ser apenas matéria-prima para se transformar em memória. É essa uma das ideias que atravessou a exposição “Pegadas do Barro”, da artista visual e ceramista Ilda Semedo, que encerrou esta segunda-feira (31), na Mediateca do BCI, em Maputo.
A mostra convidou o público a olhar para a cerâmica para além da sua dimensão estética, colocando em evidência a relação entre o ser humano, a terra e os vestígios que permanecem ao longo do tempo. Nas peças apresentadas, o barro surgiu como uma espécie de arquivo, capaz de guardar marcas da existência e contar histórias sobre identidade, pertença e continuidade.
A proposta partiu de uma ideia simples, mas profunda: tudo o que existe deixa uma marca. Pessoas, animais, plantas e até fenómenos naturais transformam o espaço que habitam. A terra, nesse sentido, deixa de ser apenas cenário e passa a assumir o papel de testemunha e guardiã da memória colectiva.
Na abertura da exposição, a própria artista destacou o papel da família na construção do seu percurso. Ilda Semedo fez questão de reconhecer o apoio dos pais, sobretudo por terem acreditado na sua escolha pela arte numa altura em que seguir uma carreira artística nem sempre era visto como uma opção segura ou valorizada.
“Ser artista, contrariamente àquilo que às vezes se diz, é uma bênção e não tem nada de marginal”, afirmou a ceramista, numa declaração que resume também uma das dimensões da sua trajectória: a defesa da arte como profissão, espaço de realização pessoal e instrumento de transformação social.
A exposição também chamou atenção para a importância da formação e da transmissão de conhecimento. Na ocasião, a secretária de Estado das Artes e Cultura, Matilde Muocha, destacou o percurso de Ilda Semedo e o seu contributo para a formação de novos artistas, considerando que a sua experiência demonstra como a arte pode desempenhar um papel activo na sociedade.
Mais do que apresentar objectos de cerâmica, “Pegadas do Barro” propôs uma pausa para pensar sobre aquilo que deixamos para trás e sobre as marcas que recebemos de quem veio antes de nós. Entre formas, texturas e diferentes expressões da matéria, a exposição aproximou a arte de questões que fazem parte da vida quotidiana: de onde viemos, o que nos pertence e que memória queremos deixar.
Natural de Maputo, Ilda Semedo construiu um percurso que cruza diferentes áreas criativas. Artista visual, ceramista, designer, empreendedora e docente da Escola Nacional de Artes Visuais (ENAV), onde lecciona Design e Cerâmica, tem desenvolvido o seu trabalho entre a criação artística e a formação de novas gerações.
O encerramento de “Pegadas do Barro” marca, assim, o fim de uma temporada expositiva, mas não necessariamente o fim das perguntas lançadas pelas obras. Afinal, se cada existência deixa uma pegada, também a arte pode ser entendida como uma forma de garantir que determinadas histórias, memórias e identidades não desapareçam com o tempo.