...chamaram-nos à mesa numa noite sem lua. Não havia velas, mas havia cicatrizes. Não havia bandeiras, mas havia memórias. A madeira onde nos apoiávamos estava marcada por ranhuras antigas, algumas aparentemente vindo do tempo em que mãos negras eram contadas como mercadoria na costa da Ilha de Moçambique, outras do tempo em que essas mesmas mãos cerraram-se contra o Império, sob o sopro de Eduardo Mondlane e a chama de Samora Machel.
Cinco vozes ergueram-se. A primeira falava baixo, mas sustentava tudo; A segunda apontava direcções, às vezes com dureza; A terceira era incómoda, rebelde, impossível de ignorar; A quarta falava de pactos antigos, de alianças, de lobolo e promessas seladas sob o embondeiro; A quinta, a menor, tremia, mas dizia verdades que os outros evitavam ouvir.
Reuniram-se porque o tempo exigia decisão. O País sangrava de silêncios. As ruas murmuravam nomes que o vento levava para além de Maputo, atravessando o Índico como outrora atravessaram correntes e caravelas. O mundo ardia em outras latitudes: Guerras transmitidas em ecrãs luminosos, crianças soterradas sob escombros, vozes caladas por regimes que temem perguntas. E aqui, no ventre da África Austral, a terra também estremecia, ciclones rasgando casas frágeis, promessas políticas que se dissolvem como sal na água, jovens atravessando fronteiras invisíveis em busca de um futuro que não lhes foi entregue.
—Precisamos de agir. — Disse a voz firme.
—Precisamos de apontar os culpados. — Replicou a segunda.
—Precisamos de romper. — Gritou a terceira.
—Precisamos de lembrar quem somos. — Murmurou a quarta.
E a quinta hesitou, mas falou...
—Precisamos de cuidar.
Riram-se!... A história nunca teve paciência para os pequenos. Mas a história, ou mesmo estória, em Moçambique, conhece o peso do invisível. Conhece o que não aparece nos relatórios internacionais nem nas estatísticas do PIB. Conhece o batuque que resiste em zonas suburbanas, a capulana que veste a dignidade, o conselho do mais velho à sombra do cajueiro. Conhece a crença nos antepassados, o kupalha, o respeito pelo espírito que habita o rio, a ética comunitária que diz: "Munhu i munhu hi vanhu." — Sou porque somos!... E mesmo assim, estavam divididos.
A voz que apontava queria justiça imediata. A voz rebelde queria ruptura total. A voz do pacto temia que se perdesse o equilíbrio ancestral. A voz que sustentava lembrava que sem base não há revolução que sobreviva.
Discutiram sobre a corrupção que corrói como ferrugem silenciosa. Sobre os jovens formados que vendem recargas nas esquinas. Sobre os que morrem no Mediterrâneo, acreditando numa Europa que não lhes ensinou o nome verdadeiro da liberdade. Sobre as potências que exploram gás, rubis e corpos com a mesma frieza com que outrora exploraram marfim e ouro.
Falaram de FRELIMO, falaram da esperança traída, falaram da memória da luta e do risco de a transformar em museu. Falaram da África que dança e sangra ao mesmo tempo. O conflito cresceu. Tentaram agir separados...
A voz que sustentava tentou erguer sozinha o peso do mundo, falhou. A que apontava acusou tanto que perdeu aliados. A rebelde, rompeu pontes necessárias. A do pacto prendeu-se ao passado. A pequena, ignorada, recolheu-se.
E então veio o vazio. Porque nada se constrói com fragmentos dispersos. Nem independência, nem democracia, nem dignidade. Foi a menor quem primeiro regressou.
—Sem mim, vocês não seguram nada. — Disse, quase num sussurro.
Houve silêncio. Perceberam que a força não está apenas na voz que grita, mas na que equilibra. Que a revolução não é só fogo, é também cuidado. Que tradição não é prisão quando dialoga com o presente. Que apontar sem apoiar cria abismos. Que sustentar sem questionar cria acomodação.
Lentamente, aproximaram-se. Não por unanimidade cega. Mas por consciência. Uniram-se. E nesse instante, quando as cinco vozes se alinharam, algo aconteceu. Não era mais debate. Era gesto. Ergueram-se juntos.
E só então se revelou o que sempre foram: Não eram cinco vozes numa mesa. Eram cinco dedos de uma mesma mão. Uma mão Moçambicana, uma mão Africana, uma mão humana. Aberta para acolher. Fechada para lutar. Porque sozinhos somos fragmento. Juntos somos punho!...
Oro Wa Ka Munguambe
Fevereiro, 2026
Nampula
Melo Munguambe
Melo Munguambe, conhecido artisticamente como Oro Wa Ka Munguambe, nasceu em 25 de Abril de 1996, em Maputo. É activista social, pesquisador, escritor, poeta, cronista, roteirista, dramaturgo, rapper, actor, performer, geotécnico e empreendedor cultural moçambicano.