Quanto Custa Um Arco-Íris?
PARTE UM
(Aspectos Gerais Sobre o Livro)
O Livro Por Fora
O Vendedor Ambulante de Arco-Íris é um livro infanto-juvenil do género conto, da autoria de João baptista Caetano Gomes, editado em 2025 pela Nwana Edições, uma chancela da Ethale Publishing. Adquiri o meu exemplar deste livro no dia 31 de Março, no Camões – Centro Cultural Português, na ocasião do seu lançamento na Cidade de Maputo. Desde então, fiz quatro leituras do livro, das quais surgem as notas que vão a compor este texto.
O Livro Por Dentro
A narrativa decorre na aldeia imaginária de Mandiri. É aí que vive Bernardo, um “menino vidente” com intimidade com a Natureza e sensível ao sofrimento colectivo, a saber: a fome, a falta de hospital e de médicos, a ausência de água, de escolas e de amor ao próximo. Perturbado por este estado de coisas, o menino toma uma decisão radical, ei-la: tirar o arco-íris do céu e fazê-lo nascer da terra, para que as suas cores iluminem o que está na escuridão.
O arco-íris, personagem com voz e personalidade próprias, aceita após uma “conversa longa e amigável” e torna-se tanto mercadoria quanto parceiro comercial de Bernardo. O menino passa a vender as cores de casa em casa: são as cores da esperança, da alegria, da justiça, do amor ao próximo e da mudança de convivência entre os homens. A venda é um sucesso, a aldeia começa a transformar-se, pelo menos até o arco-íris desaparecer misteriosamente.
A sua ausência desencadeia um ritual colectivo protagonizado pelos anciãos e curandeiros da aldeia, realizado sob um embondeiro, com maheu, ossos de galinha, notas de dinheiro e cânticos tradicionais. O arco-íris regressa mais colorido, a falar línguas bantu moçambicanas. Seguem-se episódios que testam e confirmam a bondade de Bernardo. O livro encerra com o arco-íris a instalar-se definitivamente na terra, e Bernardo a ser inscrito na lista dos heróis de Mandiri.
O conflito predominante é a tensão entre a escuridão moral da comunidade e a luz que o menino-vidente procura trazer através da distribuição simbólica dos valores universais. Os temas recorrentes são: diversidade e inclusão racial e física; solidariedade e amor ao próximo; cultura tradicional moçambicana como recurso válido; infância como espaço de visão moral superior; e a natureza como entidade relacional e comunicante.
Parte II
(Aspectos Positivos Sobre o Livro)
A Inversão Cosmológica
O gesto de retirar o arco-íris do céu para o fazer nascer da terra é uma ideia literária de particular beleza e potência simbólica. A inversão cosmológica de tal gesto repercute profundamente sobre a Tradição Oral Africana, onde os fenómenos naturais, ao invés de serem considerandos meros efeitos físicos, são assumidos como entidades relacionais, capazes de descerem ao nível humano para servirem a comunidade, mormente em função da moral.
As tradições africanas, em sua diversidade, acreditam que a chuva responde ao comportamento moral da comunidade. Esta pode ser enviada pelos antepassados ou pelas divindades para premiar a justiça, garantir boas colheitas ou, em contrapartida, ser retirada quando há quebra da ordem social. Assim como naquela inversão cosmológica, a chuva participa da vida ética da comunidade e não se restringe apenas ao ciclo hidrológico.
As culturas bantu da África Central e Austral, concebem os rios como espaços habitados por espíritos ou antepassados. A água cura, protege e estabelece comunicação entre vivos e mortos. Dessa forma, cruzar um rio, banhar-se nele ou realizar rituais junto às suas margens significa entrar em relação com essas presenças espirituais, e não apenas utilizar um recurso natural. De forma funcionalmente similar, surge o arco-íris em Mandiri – como presença viva.
A Integração Cultural
O enredo perpassa a integração de elementos da Cultura Moçambicana. O embondeiro é apresentado como um espaço de deliberação pública. O maheu e os ossos de galinha são dispostos como componentes do ritual de invocação dos antepassados. A cerimónia é dirigida por anciãos e curandeiros. E, por tudo o mais, a resolução do conflito central – o desaparecimento do arco-íris – passa por um ritual tradicional comunitário.
A Cultura Moçambicana é, dessa forma, apresentada como alternativa consideravelmente consistente para a solução dos problemas, sob a perspectiva de soluções locais para problemas globais, mas também – e principalmente – pela manifestação valorativa dos saberes locais, tal como teoriza o filosofo J.P. Castiano. Essa integração de elementos da Cultura Moçambicana é uma construção de valor considerável e constitui, portanto, o núcleo duro de todo o enredo.
Altamente feliz é o momento em que o arco-íris regressa a falar línguas bantu moçambicanas. Ao aprender as línguas do povo durante a sua ausência, a personagem regressa transformada pela experiência da comunidade a que serve. É uma afirmação discreta mas estruturalmente poderosa do multilinguismo moçambicano como riqueza, não como segregação; isto é, como identidade, não como obstáculo à unidade nacional entre regiões, etnias, tribos e línguas.
A Pedagogia Social
A inclusão da criança albina é um breve momento de Pedagogia Social. Em Moçambique, as pessoas com albinismo enfrentam estigma social grave e, em casos extremos, violência baseada em superstições. O arco-íris sugerir que a venda das cores deve incluir explicitamente esta criança inscreve uma realidade local urgente. Acrescentar-se-ia, para efeitos de exortação, a configuração de todas as minorias retratadas em No Ano da Fome pelo Mano Azagaia.
A recusa de Bernardo em iniciar a sua festa enquanto os mendigos, os paralíticos, os cegos, os mudos, os surdos, os leprosos, os esfomeados, os meninos da rua e os injustiçados forem impedidos de entrar é o momento mais forte da narrativa, a levar em consideração a premissa do livro. Ora, evoca-se, de modo subtil, a Filosofia Ubuntu sob o lema “sou porque somos”, que opera como acto genuíno de uma criança que não sabe ser feliz senão com os outros.
PARTE III
(Aspectos Negativos Sobre o Livro)
O Primado da Moralização Sobre a Ficção
A Literatura não se exerce pela sobreposição da didáctica à ficção. A Literatura não explica o significado da experiência; vive a experiência e permite que o leitor construa por si mesmo o significado. A Literatura, quando explica o sentido da experiencia, empobrece a imaginação dos leitores. Ademais, o excessivo exercício didáctico em Literatura ameaça a conotação; isto é, quanto mais didáctico for um texto, menos conotativo poderá ser e, por conseguinte, também se pode tornar menos literário.
O Vendedor Ambulante de Arco-Íris (parece-me que) prefere a certeza do sermão à abertura para a imaginação. Os parágrafos são insistentemente carregados de lições de moral. As cores são definidas explicitamente como “esperança, alegria, justiça, amor ao próximo e mudança de convivência entre os homens”. O ambulante vende “as cores da solidariedade, do amor, da fraternidade, da justiça, da paz e de tudo aquilo que caracteriza as coisas do bem”. O Didatismo é tão transparente que se confunde com Catequismo.
A estética do Didatismo é empobrecedora e pedagogicamente contraproducente. A criança que descobre por si mesma que as cores do arco-íris simbolizam a diversidade e a alegria partilhada tem uma experiência de aprendizagem sumamente diferente à criança a quem o livro informa directamente sobre esse facto. A primeira constrói conhecimento; a segunda apenas recebe uma instrução. E instruções, ao contrário de experiências, são facilmente esquecidas.
O leitor, quando abre um livro, tem de esperar um mínimo possível de desejo, de sugestão ou uma linguagem capaz de incendiar a imaginação. Quando uma obra literária troca o mistério pela pedagogia, o potencial para a imaginação desaparece e sobra apenas a sensação chata de que alguém confundiu Lirismo com Catequismo. Ler um livro é também abrir-se para a imaginação. O excesso de moralização constitui, portanto, uma derrota da ficção.
A Plana Caracterização
Bernardo é bom. Bernardo é muito bom. Bernardo é extraordinariamente bom. É bom ao ponto de continuar “simples e extremamente humano” em quaisquer circunstâncias. O momento em que, durante a reunião sob o embondeiro, “apanha uma grande pedra e quis lançar a um ancião” é o único em que o menino demonstra uma emoção imperfeita. Todavia, é imediatamente suprimido pela narrativa e usado como pretexto para uma lição sobre o respeito pelos mais velhos e, logo depois, é apagado da memória do enredo sem deixar efeitos nem defeitos.
Uma personagem memorável precisa de complexidade social e psicológica. Precisa de contradição e de sombra. Bernardo é pura luz e, absurdamente, luz pura não ilumina nada porque não cria contraste. Uma criança que lê O Vendedor Ambulante de Arco-Iris pode admirar Bernardo, mas dificilmente se há-de nele reconhecer porque Bernardo não tem os defeitos, as hesitações, as emoções, etc. que constituem a experiência concreta da infância. É um menino-messias, não um menino. É uma função moral com o rosto de uma criança.
O Senhor Invejoso é o exemplo mais notável desta limitação. O seu nome é o seu destino. Nasceu invejoso, cresceu invejoso, recusou o arco-íris por ser invejoso. Não há antecedentes nem razões. É uma caricatura a servir de ilustração de um defeito moral, não um ser humano a habitar uma ficção. Quando se caracteriza desta forma as pessoas más, corre-se o risco de inculcar inadvertidamente nas crianças que a maldade é uma essência, não uma circunstância.
O Desperdício de Tensões
O conflito escola-solidariedade constitui uma tensão desperdiçada. Dá-se no episódio em que a mãe de Bernardo o repreende por haver faltado à escola para ajudar uma (suposta) menina atropelada. É, potencialmente, o conflito mais rico do livro. Eis a tensão formulada: o dever institucional (a escola e o futuro) versus o imperativo moral imediato (ajudar a quem sofre). É exactamente o tipo de dilema que precisa de ser pensado, discutido e, criticamente, não resolvido de forma fácil.
A narrativa, no entanto, dissolve o conflito no mesmo súbito em que o cria: o arco-íris surge “por coincidência”, a mãe “ganhou cor” e “percebeu, finalmente, que na vida o que interessa é o amor ao próximo”. Problema resolvido por aparição. A instituição escolar é descartada como irrelevante face à solidariedade, mas sem que a decisão seja deliberada. É uma revelação mágica, não o produto de uma reflexão que a criança leitora possa acompanhar e fazer sua. São buracos que, ao autor, não interessa tapar, pois prefere cobri-los com cores.
A Ética do Engano
O episódio da menina que finge ter sido atropelada para “testar o coração nobre de Bernardo” suscita-me duas questões que o texto ignora completamente, a saber: 1) a narrativa apresenta como positivo e astuto o acto de enganar uma pessoa bondosa, tanto que os enfermeiros, o médico e o hospital “riram-se da esperteza da Matilde” e 2) o episódio existe apenas para confirmar o que já se sabe sem acrescentar nenhum conflito novo, nenhuma complexidade, nenhum efeito. É-me agora difícil definir que mensagem fica para uma criança que lê que enganar um hospital pode ser simplesmente “esperteza”.
A Mercantilização dos Valores
O arco-íris é apresentado tanto como mercador (parceiro de negócio) quanto como mercadoria (objecto de negócio). A superfície dessa imagem, análoga à relação comercial de Bernardo com o arco-íris, lembra a relação entre um cafetão e sua meretriz. Todavia, a sua profundidade perpassa o Monetarismo, ancestral do Neoliberalismo. Assim, a partir da mercadoria, da força de trabalho, da mais valia e do lucro – elementos que estão em jogo nesse processo – fica difícil afastar os personagens da hermenêutica de uma potencial exploração capitalista.
A comercialização dos valores é um aspecto perturbador do livro. Em O Vendedor Ambulante de Arco-Iris, os valores têm preço. Bernardo não doa as cores – vende-as. “A venda era um sucesso”, informa-nos o narrador. As pessoas “vão comprando as cores de preferência”. O arco-íris torna-se “um negócio” – palavras do próprio texto. O gesto de pôr o arco-íris a morar na terra e, através de suas cores, derivar a difusão de valores humanos é literariamente consistente, mas a venda de valores humanos não parece o modo mais favorável de sua difusão.
A premissa do livro podia ser desenvolvida de modo mais feliz. Hoje, o Capitalismo Tardio transforma bem-estar, esperança e positividade em produtos de consumo; isto é, está em vias de comercialização de valores humanos. Uma estória para crianças sobre um menino que faz “um bom negócio” com a comercialização dos valores humanos merecia, pelo menos, reconhecer a ironia desta posição. O texto (parece-me que) não a vê. E essa cegueira pode ser muito mais perigosa se for além do âmbito literário.
O Preço do Arco-Íris
Duas das minhas quatro leituras deste livros foram dirigidas a duas criancinhas. Uma delas ficou muito apaixonada pela perfeição messiânica de Bernardo, tanto que foi pedir um arco-íris ao pai para o seu próximo aniversário. Ela voltou a mim algum tempo depois com uma pergunta que se tornou muito séria, a saber: quanto custa um arco-íris? Curiosamente, antes dessa intervenção, eu não havia ainda pensado nesse caso. E, para a infelicidade da criancinha, a resposta para essa pergunta nunca esteve ao meu alcance, mesmo depois de um exaustivo investimento hermenêutico.
O livro não revela a moeda de troca nem o preço que tornam possível a comercialização do arco-íris e de suas cores. Está dito que as pessoas ganham cores que representam valores humanos, mas não há qualquer indicação do que as pessoas davam de si para o alcance de um bem de tão alto valor. Todavia, não me parece que a falta de clareza sobre a moeda de troca deve significar que o processo ocorre pelo sacrifício dos personagens manifesto na mudança de carácter, como se tais se revestissem de uma nova personalidade em função do vendedor ambulante com a figuração de um pregador das boas-novas.
A ausência clara de uma moeda de troca e de um preço para a comercialização do arco-íris e de suas cores é uma limitação do autor. Assim, a premissa do livro é consideravelmente inconsistente, posto que carece do conteúdo (preço) e do fundamento (moeda) para a ocorrência de todo o comércio, o qual não devia ocorrer sem estes elementos. Assumir a alternativa em que a moeda de troca significa o sacrifício dos personagens manifesto na mudança de carácter é incoerente, posto que não parece haver qualquer conexão entre uma e outra coisas e, caso houvesse, seria tão claro como o facto de as cores representarem valores morais.
A alternativa em que se admite uma moeda e um preço tais para a comercialização do arco-íris e de suas cores parece mais aceitável, posto que se pode conectar melhor com a ideia de vendedor ambulante e com a forma como se dispõe todo o enredo naquele mundo mágico. O problema é que não há preço nem moeda consideráveis em qualquer momento da trama. Afora aquela alternativa inconsistente e essa alternativa incoerente, a premissa do livro ainda é disparatada, pelo que podia ter sido melhor desenvolvida. É exactamente este problema – um círculo vicioso – que torna difícil formular uma alternativa favorável.
Assim, neste círculo vicioso, persiste a pergunta que talvez o autor nos saiba a resposta: quanto custa um arco-íris?
Cidade da Matola, 14.07.26
Bulícios Dum Ledor
Ericson Sembuer
Ericson Sembuer, que também assina por Scorien Beuserm, é natural do Coração de Moçambique. É licenciado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia da Universidade Eduardo Mondlane. É formado em Cinema pela Afrocinemakers Film Academy. É escritor de Prosa e de Poesia. E colabora com alguns jornais e revistas nacionais.