O The Funk Off 2 transformou a última sexta-feira (9), numa celebração da música, das memórias e da partilha entre gerações. Realizado em Maputo, o espectáculo reuniu perto de 15 artistas, responsáveis por interpretar cerca de 25 temas, num repertório que percorreu o funk, o soul, o R&B e outras sonoridades que marcaram diferentes épocas.
Mais do que revisitar clássicos, a iniciativa propôs uma experiência em que a música, a dança e a indumentária se articularam para recriar a atmosfera de outros tempos. Em palco, artistas de diferentes percursos deram novas interpretações a temas conhecidos, enquanto o público acompanhou uma viagem musical que privilegiou o ritmo, a nostalgia e a celebração.
Entre os artistas que voltaram a integrar o espectáculo esteve Bhaka Yafole, que participou pela segunda vez. Na sua actuação, interpretou “Be thankful”, de William DeVaughn, e “Do leme ao pontal”, de Tim Maia, dois temas que traduzem a diversidade sonora proposta pelo evento.
Para o músico, integrar o conceito não representou nenhuma dificuldade, uma vez que são ritmos com os quais já tem familiaridade. “Desde a primeira edição que não foi um desafio para mim, porque são estilos com os quais estou habituado a brincar. Por isso, foi fácil integrar-me. Estou feliz por fazer parte de um movimento que já fazia falta na cidade de Maputo”, sublinhou.
A celebração também abriu espaço à valorização da música moçambicana. Radjha Alyy destacou-se por levar ao palco “Tsuketane”, dos Kappa Dech, depois de interpretar “Don't stop 'til you get enough”, de Michael Jackson, numa actuação que evocou a presença e a energia do Rei do Pop, à moda macua, claro.
“Fui o único artista a cantar uma música moçambicana e, quando é Moçambique, eu estou lá”, declarou, satisfeito com a oportunidade de representar a produção musical nacional num alinhamento dominado por clássicos internacionais.
Mas a satisfação do artista foi além da actuação. À saída do palco, uma espectadora abordou-o para lhe dizer que a sua performance a tinha marcado profundamente e lhe devolvera uma sensação agradável, apesar de estar a atravessar um período difícil.
“Ouvir esse tipo de depoimento é sempre uma alegria. Significa que o nosso trabalho não passa despercebido e que estamos a fazer alguma coisa”, partilhou Radjha, sublinhando a dimensão emocional da música e a capacidade de uma actuação estabelecer uma ligação com o público.
A diversidade de estilos também se fez sentir na participação de Ras Haitrim, que saiu da sua zona de conforto, associada ao reggae, para explorar outras sonoridades. O músico destacou a oportunidade de interpretar “Killing in the Name”, dos Rage Against the Machine, uma escolha que alargou o espectro musical do espectáculo.
Um encontro entre gerações
O The Funk Off 2 foi também um espaço de encontro entre gerações, não apenas através das músicas escolhidas, mas igualmente pela presença de artistas e bailarinas com diferentes experiências e percursos. Remy Dama e Sara Soeiro estiveram entre as bailarinas que deram corpo e movimento às actuações.
Para Sara Soeiro, filha do mentor da iniciativa, o espectáculo foi o resultado de um trabalho exigente de produção e preparação. A bailarina destacou o empenho da organização e a resposta dos músicos em palco.
“O meu pai trabalhou muito para produzir o The Funk Off, reunir toda esta gente e proporcionar um bom espectáculo ao público. Acho que o resultado foi muito positivo, porque as músicas foram bem escolhidas e a banda soube executá-las”, salientou, orgulhosa pelo resultado.
O alinhamento contou ainda com Onésia Muholove, quem interpretou “Master Blaster”, de Stevie Wonder, e Xixel Langa, que levou ao palco “And the beat goes on”, dos The Whispers, e “Sex machine”, de James Brown.
Flávio Lisboa revisitou “Noite do Prazer”, de Cláudio Zoli, e “Compacto”, de Curumin, enquanto Yolanda Kakana interpretou “Superstition”, de Stevie Wonder, antes de passar para “All Night Long”, de Lionel Richie. Fill apresentou “Get down on it”, dos Kool & the Gang, e “Lose yourself to dance”, dos Daft Punk.
Stewart Sukuma também integrou o elenco, com “Celebration”, dos Kool & the Gang, entre outras interpretações que contribuíram para a diversidade do alinhamento pensado ao pormenor.
A acompanhar as vozes esteve a El B Band, colectivo composto por 10 instrumentistas e liderado por Nelton Miranda, cuja presença assegurou a base musical para as diferentes interpretações e ajudou a dar corpo ao espectáculo.
Rui Soeiro (e a sua bengala) quer consolidar o projecto
No balanço da segunda edição, Rui Soeiro considerou que o The Funk Off superou as expectativas. Mais do que o resultado artístico, o mentor destacou a dimensão pessoal e colectiva de uma experiência que lhe permitiu, também, libertar energias através da música e da dança.
“Acho que foi um bom concerto. Como digo desde o início, este projecto tem pernas para andar”, afirmou.
Soeiro revelou que se envolveu activamente na festa, cantando e dançando ao longo do espectáculo, apesar de não ser habitual fazê-lo neste tipo de iniciativas. “Já estou a perder a voz, porque geralmente não canto nestas coisas, mas desta vez andei a cantar e a dançar. Sei que amanhã vou estar de cama, mas, mesmo com a bengala, deu para libertar energia”, contou.
Apesar da recepção positiva, o mentor defende uma evolução gradual do projecto. Na sua perspectiva, a consolidação do The Funk Off passa por preservar aquilo que funcionou e identificar os aspectos que podem ser melhorados, sem comprometer a qualidade da experiência.
“É preciso ter paciência. Fazer uma vez por ano já está bom. Há uma máxima em inglês que diz: ‘Se não está estragado, não tentes consertar’. Acho que resultou, embora haja necessidade de acertarr alguns aspectos, nomeadamente a gestão dos bares e a rapidez com que as coisas acontecem”, explicou.
A prudência não retira ambição à iniciativa. Pelo contrário, reflecte a intenção de fazer crescer o conceito sem perder a sua essência: reunir artistas, celebrar diferentes épocas da música e proporcionar ao público uma experiência que vá além de um concerto convencional.
No final, Rui Soeiro deixou uma mensagem de agradecimento a quem aderiu à segunda edição e um convite a quem ainda não teve oportunidade de participar:
“Pessoal que veio, muito, muito obrigado. A ideia de um maluco convencer outros malucos a fazerem uma coisa maluca resultou numa maluquice fantástica. Aos que não vieram, fica o convite: no próximo ano, venham ver as novas maluquices”, concluiu.
Entre clássicos revisitados, cruzamentos de estilos e momentos de proximidade com o público, o The Funk Off 2 reafirmou a sua vocação para celebrar a música sem fronteiras rígidas entre géneros e gerações.
A próxima edição está ofcialmente marcada para o dia 8 de Outubro de 2026, como como promessa de continuidade para um projecto que procura afirmar-se no calendário cultural da tão agitada cidade de Maputo.
Elcídio Bila
Oficial de comunicação e criativo com mais de 10 anos de experiência em jornalismo, assessoria de imprensa, edição e produção cultural. A sua trajectória destaca‑se pela versatilidade, cruzando media, criação literária e projectos socioculturais. Reúne competências em escrita criativa, edição de imagem, vídeo e design gráfico, complementadas por capacidade de liderança e gestão de equipas.